/ Ecologia

As criaturas da floresta

Há muito tempo atrás, quando o Homem não passava de um convidado recém-chegado, o planeta Terra pertencia às criaturas da floresta. Por criaturas da floresta, entenda-se gnomos e elfos, faunos e fadas, duendes, ogres, trolls… Eles vigiavam-na e cuidavam dela; brincavam, dançavam e cantavam, tratavam dos animais feridos, resolviam disputas entre as espécies e sentavam-se em cima dos cogumelos discutindo assuntos de importância. Assim era o mundo onde a humanidade nasceu.

O homem descobriu a agricultura. Com ela, a civilização floresceu e expandiu-se. As florestas garantiram o fornecimento de madeira, enquanto os campos foram usados para o cultivo e pastagens. A humanidade instalou-se. De início, isto não constituiu um problema. Não havia muita gente, e todos consideravam ser justo alugar-lhes aqueles pequenos hectares para fazerem deles o que quisessem. Alguns até decidiram ajudar: os gnomos mudaram-se para os celeiros, ajudando nas tarefas de jardinagem e muitos trolls sentiram que os montes de estrume eram uma mudança para melhor, e decidiram ficar por perto. As restantes criaturas da floresta recuaram para o interior. O domínio do Homem espalhou-se e as florestas foram ficando cada vez mais pequenas. Os seres começaram a amontoar-se nas florestas, enquanto que na civilização as coisas iam piorando. Os agricultores acharam que podiam aumentar as suas produções, e ao aumentarem a produtividade, iam matando o solo. Os gnomos fugiram e os trolls ficaram. Agora existe muito pouca superfície virgem e até essa vai diminuindo a uma velocidade incrível. Simplesmente, não existe espaço suficiente para todos as criaturas da floresta. Para onde foram?

O homem trocou a ligação ao planeta Terra pela desflorestação com máquinas de deslizamento, tornando as vacas em máquinas de leite e as galinhas em fábricas de ovos. Estamos todos com a sensação de que são as florestas, as criaturas, os espíritos e as paisagens selvagens que estão a pela qual as árvores, as pedras, os rios, as correntes, as aves, as cobras, os ursos e as rãs já não conversam connosco, tal como o faziam nas primeiras histórias dos nativos americanos, dos povos hindus, africanos ou nas histórias bíblicas? É por que nós já não estamos lá para o fazer. Cada desflorestação, cada massacre afasta o nosso mundo de sonho cada vez mais e mais da árvore, tornando ainda mais difícil a reunificação, que ainda é possível. Algures, não muito longe daqui, no mundo real, as florestas antigas ainda permanecem de pé, os búfalos vagueiam pelas pradarias, o céu está cheio de condores, os veados brincam com os antílope.

Onde quer que exista espaço virgem no nosso mundo de sonho, ainda existirá uma forte ligação: pontes, túneis e portais. De vez em quando, um viajante perder-se-á na vastidão e encontrar-se-á no mundo verdadeiro, voltando no dia seguinte para descobrir que passaram mais cem anos, ou até não voltando de todo.

Há, também outras ligações efémeras, como riachos ou cascatas onde ainda se podem ouvir vozes do outro lado, quando se escuta atentamente. Quando eles se sentam perto destas águas, ouvem tinidos estridentes e gritos. Enquanto as nossas crianças podem ver o mundo deles nos seus sonhos, as crianças deles vêem o nosso mundo nos seus pesadelos.

Além disso, há outra ligação: às vezes, agentes do outro lado infiltram-se no nosso mundo na tentativa de apressar a reunificação. Acreditem ou não, eles sentem saudades nossas. Às vezes, mais frequentemente do que imaginam, eles enviam almas até ao nosso mundo para nascerem como bebés humanos. Há muitos por cá, neste momento.. Estão a plantar jardins, vivem com os índios, dirigem centros de reciclagem, estão a iniciar revoluções, a corromper os jovens, a escrever poesia…

A transição do seu mundo para o nosso não é fácil. Envolve rituais e encantamentos. No início, eles podem não fazer qualquer ideia do que ou de quem são. Podem ou não vir a descobri-lo. Sabem, contudo, que são diferentes da maioria. Sabem que este mundo não é o deles. Recordar-se-ão, vagamente, de algo melhor, onde tudo fazia sentido e tudo funcionava como deve ser, onde o amor e a magia tinham o poder de curar.

Eles vêem coisas que os outros não podem ver, ouvem coisas que os outros não ouvem, sentem coisas que os outros não sentem e sabem coisas que os outros não sabem. Eles amarão os humanos individualmente, mas passarão um mau bocado com a humanidade como um todo. Eles terão uma mão cheia de amigos íntimos, mas, muitas vezes, estarão sós.

Devido às suas memórias do outro lado, o mundo parecer-lhes-á um fantástico orgão a vapor com apenas alguns dentes na engrenagem; devido a esta pequena deficiência, a música está toda desafinada, os cavalos chocam uns com os outros e as crianças estão assustadas, magoadas e a chorar.

As soluções parecerão óbvias mas mais ninguém as ouve.

Eles passarão muito do seu tempo com crianças e animais.
Eles tornar-se-ão bêbados e amigos da droga, jardineiros orgânicos, carpinteiros, loucos, mágicos, malabaristas e palhaços, físicos lunáticos, pintores e desenhadores de rabiscos, viajantes e vagabundos.
Eles vestir-se-ão com cores brilhantes, com camisolas desmazeladas ou todos de preto.
Eles fumarão demais, ou beberão demais. Eles comerão apenas comida macrobiótica.
Eles serão frequentemente acusados de viver no seu próprio mundo de fantasia. Eles darão grandes amantes (até os trolls).
Eles passarão demasiado tempo a fazer amor, ou a pensar nele.
Eles falarão com objectos inanimados.
Eles terão olhos mais brilhantes do que todos os outros.
Eles esperarão que a sua magia funcione no mundo e que o seu amor cure e serão esmagados por esse mesmo mundo (muitas vezes, sem estarem à espera).
Eles visitarão os lugares onde as ligações ainda existem: as cascatas, as montanhas, o oceano, a floresta. Eles atraem todo o poder que têm e, por vezes, a magia acontece. Tudo será maravilhosamente fácil e as crianças soltarão risos e cantigas com os pauzinhos de algodão doce. Enquanto o resto da humanidade se encontra ocupada em encontrar uma nova e mais eficiente forma de despejar lixo na Terra, carregando simplesmente num botão, eles estão a salvá-la, punhado a punhado.
Eles partilham da convicção comum de que são os únicos seres com sanidade num mundo de loucos.

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