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Biotecnologias agrícolas: uma resposta para as necessidades dos pobres?

Dizem que veio para mudar o mundo e para matar a fome. E em pouco tempo essas desagradáveis visões seriam erradicadas sem qualquer prejuízo para o bem comum. E foram, completamente afastadas da nossa consciência global para, tão convenientemente, continuarmos a alimentar-nos da nossa míope realidade.

Mas o cenário pouco ou nada mudou e, ainda que o tivesse feito, a realidade é que são mais os prejuízos que traz do que qualquer benefício utópico. A prova disso são os nossos solos, as nossas redes hidriológicas, a nossa própria saúde. Tudo parece desfalecer lenta e imperceptivelmente, ainda que todos assumamos que já nada tem o sabor ou odores de outrora. E não é uma questão de memória nem de tempo, mas um reflexo directo e consequente das nossas ações e decisões.

Lentamente integramos e contribuímos para um processo que pouco ou nada analisamos.Os OGM mais plantados são a soja, o milho, o algodão e a canola cujo ADN é modificado através da implementação de genes que maximizem a sua resistência a herbicidas e a infestações.

Hoje, estão disponíveis no comércio 121 variedades de transgênicos de milho, 48 de algodão, 30 de canola e 22 de soja (...)

São híbridos, laboratorialmente fabricados para resistirem e dominarem os ciclos espontâneos da natureza e trazem-nos inumeras questões que vão além da ética ecológica, lançam-nos numa espiral de incognitas economicas, sociais e, sobretudo, humanas.

(...) muitas vezes é omitido o aspecto econômico e social relacionado com a produção das plantas transgênicas. O mercado mundial globalizado, de fato, tende a enfatizá-las e a promovê-las, seja junto aos produtores, seja junto aos consumidores.

As sementes transgênicas são patenteadas, e a sua utilização traz rendas consideráveis para as 18 multinacionais (gráfico abaixo) que as desenvolvem. Além disso, a característica de serem “estéreis masculinas” favorece ainda mais as fáceis tentações de monopólio, uma vez que impõe, a cada ano, a compra de novas sementes. (...)"

Grafico

“Biotecnologias agrícolas: uma resposta para as necessidades dos pobres?.

Atualmente, a solução para essa desafiadora questão permanece negativa. Ao contrário, poderia ter uma resposta concreta se as verdadeiras necessidades alimentares dos países pobres fossem levadas em consideração. Por exemplo, se poderia modificar geneticamente plantas como o sorgo, o milhete (milho-miúdo ou painço), a cevada, o arroz, enriquecidas de nutrientes ou capazes de crescer em condições climáticas e de terreno adversas. Se isso não acontece é porque as plantas transgênicas são principalmente estudadas segundo a lógica do lucro econômico dos países desenvolvidos.

A mesma motivação vale para um segundo exemplo. Uma das fronteiras mais promissoras e menos investigadas dos transgênicos é a possibilidade de produzir para as plantas vários tipos de vacinas. O eventual progresso nesse campo científico, com a concomitante renúncia da patente, poderia abrir cenários inesperados para os países pobres: milhões de pessoas poderiam ter fácil acesso às melhores condições sanitárias.

Para orientar o uso das plantas geneticamente modificadas a um bem comum real, parece indispensável que elas sejam integradas em um programa completo de pesquisa e de desenvolvimento agrícola mundial, e que este obtenha a devida atenção, inclusive financeira.

A saúde e o ambiente poderão receber mais cuidado quanto mais as entidades públicas se consorciarem entre si, com a capacidade propositiva da pesquisa orientada e finalizada. A própria sociedade deverá assumir a responsabilidade de participar na definição dos objetivos da pesquisa, das prioridades, das aplicações e da repartição das vantagens daí derivados.

Para que tudo isso possa acontecer, é indispensável uma reflexão pacata, mas distante de qualquer abordagem venal.” §

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