/ Economia

O Papalagui não tem tempo

Comentários de Tuiávii, chefe da tribo nos Mares do Sul. Papalagui somos nós, o branco, o estrangeiro, o “civilizado”. Traduzido literalmente, é aquele que furou o céu. Tuiávii, Chefe da Tribo Tiaveá na Polinésia, descreve aos seus compatriotas suas impressões a respeito dos valores e modo de vida do homem branco, observados durante uma viagem que fez à Europa.

“O Papalagui nunca está contente com o tempo que lhe coube e censura o grande espirito o não lhe ter dado mais. Chega mesmo a blasfemar contra Deus e a sua sabedoria, dividindo e subdividindo cada novo dia que nasce, segundo um plano bastante preciso. Corta-o como se cortasse os pedaços de um noz de coco mole com um cutelo. As várias partes têm todas elas um nome: segundo, minuto, hora. (…) É uma coisa muito confusa que na realidade nunca percebi, (…) O Papalagui, no entanto, faz disso uma ciência. Os homens, as mulheres e até as crianças que ainda mal se têm nas pernas trazem consigo, quer presa por grossas cadeias de metal que lhe pendem do pescoço, quer atada ao punho com a ajuda de uma correia de coiro, uma pequena máquina achatada e redonda onde podem ler o tempo, o que não é mesmo nada fácil. Ao ouvir o barulho da máquina do tempo, queixa-se o Papalagui assim: - Que pesado fardo! mais uma hora que se passou! E ao dizê-lo, mostra geralmente um ar triste, como alguém condenado a uma grande tragédia. No entanto, logo a seguir principia uma nova hora!

Como nunca fui capaz de entender isto, julgo que se trata de uma doença grave. »» O tempo escapa-se-me por entre os dedos! O tempo corre mais veloz que um cavalo! Dá-me mais um pouco de tempo «« Estes são os queixumes do homem branco. (…) Suponhamos, com efeito, que um Branco tem vontade de fazer qualquer coisa e que o seu coração arde de desejo por isso: que, por exemplo, lhe apetece ir apanhar sol, ou andar de canoa no rio, ou ir ver a sua bem-amada. Que faz ele então?

Na maior parte das vezes estraga o prazer com esta ideia fixa: »» Não tenho tempo para ser feliz ««. Mesmo dispondo de todo o tempo que queira, nem com a melhor boa vontade, o reconhece. Acusa mil e uma coisas de lhe tomarem tempo e, de mau grado e resmungando, debruça-se sobre o trabalho que não tem vontade nenhuma de fazer (…). Quando de repente se dá conta que tem tempo, que tem realmente todo o tempo à sua frente, ou quando alguém lhe dá tempo – os papalaguis dão frequentemente tempo uns aos outros, é mesmo a acção que eles apreciam mais – nessa altura, ou já não tem vontade, ou já se cansou desse trabalho sem alegria.

Como vivem obcecados pelo medo de perder tempo, todos os Papalaguis sabem com exactidão quantas vezes nasceu o sol e a lua desde que viram pela primeira vez a luz do dia. Este acontecimento é tão importante que o celebram, a intervalos de tempos fixos e regulares, com flores e grandes festas. Reparei, muitas vezes, que eles no meu lugar, se sentiam envergonhados quando, ao perguntarem-me a idade que tinha, eu não era capaz de responder a tal pergunta.

(…) Ter uma idade, quer dizer: Ter vivido um determinado número de luas. Isto de se perguntar qual o número de luas apresenta grandes perigos, pois foi assim que se acabou por determinar quantas luas dura em geral a vida dos homens. Ora acontece que cada um, sempre muito atento a isso, passadas que foram inúmeras luas, dirá: »» Pronto! não tarda muito que eu não morra! »» Nada mais então lhe causa alegria e, de facto, acaba por morrer daí a pouco tempo.”

Trecho do Livro: Papalagui de Erich Scheurmann

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