/ Visão do Mundo

Paradigmas — Potencial impulsionador

O termo paradigma provem do grego antigo “parádigma“ que, quando literalmente traduzido, nos remete ao conceito de modelo ou padrão exemplar.

A noção de paradigma abrange uma série de modelos, perspetivas, visões, representações e interpretações do mundo que são universalmente reconhecidas. Eles são catalizadores de potencialização e/ou transformação social e fornecem problemas e soluções modulares para a comunidade. Um paradigma é, simultaneamente, a origem do problema e da solução, é um pressusposto básico que optimiza a formulação de leis e teorias com implicações na construção de uma realidade comum. Pode revelar-se um conceito, uma definição ou um conjunto de preconceitos socialmente pré estabelecidos, ainda que inconscientemente. Por norma, a mesma sociedade que os originou pode desconhecer ou desvalorizar o contributo que teve na sua construção. Assim, a padronização abordada pelo conceito, não só afeta a nossa visão como detém um enorme poder e capacidade de transformação e modelação, podendo preservar e/ou romper determinado comportamento estipulado por determinada sociedade e cultura, até então.

Uma das muitas características de qualquer paradigma é que se torna mais fácil de identificar aquando a sua evolução para um outro mais abrangente ou totalmente antagónico. Existem paradigmas em todas as épocas da nossa história, inclusive na atualidade, mas são automaticamente reconhecidos todos aqueles com os quais não mais nos identificamos, ao passo que os, paradigmas, que perpetuamos ou sustentamos estão de tal forma camuflados na nossa aceitação global, que nos passam quase despercebidos, requerendo uma predisposição de reflexão, busca e auto-conhecimento sobre a diversa complexidade que o caracteriza.

Remetendo para o passado são vários os exemplos de paradigmas que perduraram por centenas ou mais de mil anos como a física de Aristóteles, a astronomia Copernicana, a dinâmica Newtoniana, a química de Boyle e a teoria da relatividade de Einstein, todos eles cruciais para o desenvolvimento atual. O que têm em comum todos estes paradigmas históricos e de tal modo intemporais, que ainda que ultrapassados, perpetuaram-se (pela genialidade em suas épocas) até à atualidade? Qual o fio condutor que os une? Todos eles fundamentaram a base do problema, da solução e da geração de um novo paradigma que os ultrapassasse. Todos eles sucumbiram aos novos paradigmas que ajudaram a “criar” e, finalmente, todos subsistiram pelo papel pertinente que desempenharam na construção de uma nova realidade, modelo ou visão. Assim, observamos que a descreditação de um paradigma é sempre proporcional à geração de um novo que o substitua e, simultaneamente, este último é igualmente dependente do primeiro que o gera.

A teoria geocêntrica de Ptolomeu foi susbtituída pelo novo modelo heliocêntrico de Copérnico; a teoria gravitacional de Newton (que se baseava na força fundamental existente em todos os corpos) foi alterada, re-estruturada e substituída por um novo modelo — a teoria da relatividade-geral de Einstein — que contrapõem a proposta inicial de Newton, propondo, a gravidade, como uma característica resultante das distorções do espaço-tempo local causado pelo peso das massas dos corpos. Porém, estes exemplos são fruto de revoluções no campo científico: “a transição sucessiva de um paradigma a outro, por meio de uma revolução, é o padrão usual de desenvolvimento da ciência amadurecida” * Uma vez que a comunidade científica é, também, uma das maiores fábricas de paradigmas e a que, regra geral, se auto fundamenta de forma tão absolutista e reconhecida, que os seus créditos e credos são praticamente inquestionáveis, o que por si só já seria quase um “paradigma”. **Neste âmbito destacam-se, sobretudo as observações de *Kuhn que descreveu a prática científica como uma tentativa de forçar a natureza a ajustar-se aos limites inflexíveis e pré-estabelecidos dos paradigmas, forçando à esquematização conceptual de uma realidade criada não em função de uma necessidade, mas corrompendo-a e gerando essa necessidade em prol de resultados pré-definidos. Na ausência de um paradigma, todos os fatos significativos são pertinentes ao desenvolvimento de uma ciência. Contudo, a perpetuação de antigos e/ou geração de novos paradigmas está ampla e camufladamente incutida no código estrutural da sociedade, sobrevivendo a partir dos diversos sistemas e subsistemas que a definem, não só nos campos da validação científica e social, como acima demonstrado, mas também nos da educação e cultura, que se distinguem, como base da construção individual, de cada um de nós. O sistema educativo, por si só, compõe um paradigma, e a forma como está organizado está co- relacionada com a perpetuação de alguns arquétipos desajustados da realidade atual e com maior urgência de adaptação às novas necessidades humanas, porque nele está patente a difusão, reconhecimento ou reformulação de novos modelos, potencialmente benéficos para a população mundial. É fundamental percebermos que embora os paradigmas sejam padrões/modelos coletivos o contributo para o seu aperfeiçoamento, desconstrução ou adptação a uma nova realidade parte da evolução individual de cada pessoa que compõe o grupo, comunidade ou massa critica, da sincronização entre todos os elementos numa direcão comum e do potencial coletivo para abalar a estrutura do arquétipo até aí dominante. Metaforicamente, podemos equiparar o efeito dos paradigmas, ao da construção de preconceitos (que podem ou não, dependendo do sujeito e meio) limitar a nossa realidade, sendo que se este fosse a montanha, a sua desconstrução só seria possível alcançando o seu topo e comparando a visão inicial com essa nova perspetiva.

As revoluções, por exemplo, não são mais que a imersão atribulada de um novo paradigma que não mais coexiste com a perspetiva paradoxa que o criou, isto é, com o velho paradigma e suas conjeturas férteis à elaboração de uma nova visão comum que preencha ou corrija as suas próprias lacunas. Mas não é necessário irmos tão longe, o nosso quotidiano está repleto de bons exemplos semelhantes como a famosíssima experiência dos 5 macacos que descreve a modelação comportamental incutida ao longo do tempo e elevada a elementos que não participaram na sua origem, que desconhecem e não questionem as razões da sua difusão, ainda que sejam por esta afetados.

A experiência dos 5 macacos descreve como um grupo de cientistas conseguiu induzir essa alteração de comportamento numa “comunidade” composta por 5 animais destas espécie. Colocando os 5 macacos num compartimento fechado e acrescentando uma escada que, no seu topo, ostentava um cacho de bananas. Inicialmente, todos os macacos subiram a escada na tentativa de alcançarem as bananas mas, sempre que o faziam, eram, de seguida, borrifados com água fria. Com o passar do tempo, e a repetição sucessiva deste cenário, um a um, o grupo foi percebendo que um acontecimento estava ligado ao outro. E sempre que um dos macacos tentava subir a escada era espancado pelos restantes, até que este comportamento se tornasse comum a todos os macacos. Posteriormente, os cientistas decidiram substituir um dos macacos, prontamente, agiu de forma natural, tentando alcançar as bananas, desta vez os cientistas não interviram e cessaram os borrifamentos com água, ainda assim, todo o grupo se manifestou e espancou esse macaco, sucessivas vezes, até que, também este parasse de escalar a escada, ainda que não percebesse o porquê de ser espancado pelo resto do grupo sempre que tentava subir a escada. Mais tarde, um outro macaco foi substituído, mantendo o último que não pertencia à colónia original. Quando naturalmente a história se repetiu, e o macaco mais recente tentou alcançar as bananas, o macaco que não pertencia ao grupo original logo reagiu e começou a espancá-lo. Perpetuando assim o comportamento, cuja razões originais desconhecia. E assim sucessivamente.

A experiência dos 5 macacos exemplifica claramente como um paradigma pode facilmente ser incubado e evoluir para uma crença de grupo (os macacos, ainda que não percebessem a razão, sabiam que quando tentavam alcançar as bananas, algo mau lhes acontecia) e, ainda, ser perpetuado para gerações que não mais co-existem com as condições que o geraram. Assim, o último macaco adoptará o comportamento dos primeiros, ainda que desconheça, compreenda ou dependa da adaptação a esse paradigma. Se observarmos atentamente o funcionamento, estrutura e mecanismos da sociedade poderemos, através da análise dos seus organismos internos, compreender e identificar alguns dos paradigmas atuais que “adoptamos”, quer por via hereditária, perpetuando tradições ou modelos baseados em realidades/ condicionantes não mais existentes, quer como co-criadores de novas práticas, concepções ou perspetivações de realidades latentes.

Estamos constantemente, de forma inconsciente ou consciente, a alterar ou a desconstruir (velhos) e reconstruir (novos) paradigmas e são imensuráveis os exemplos deste comportamento no nosso quotidiano. Um grande exemplo é a evolução comportamental da nossa sociedade, que devido a inúmeras convergências nos permitiu preservar, até à bem pouco tempo, as raízes da alma inter-geracional portuguesa. Devido a este forte carácter de auto-valorização temos, agora, maior facilidade de resgate de alguns dos conhecimentos ancestrais que foram mantidos ao longo de gerações, por outro lado, esse mesmo vínculo reteve-nos por muito tempo presos ao lado mais sombrio da personalidade lusitana.

Mas, de volta ao parâmetro global, a origem do paradigma não é mais uma questão cultural, ganha agora novos contornos mais amplos e abrangentes. O que no passado surgia como um conceito estabelecido por critérios ou crenças locais, cujo impacto se refletia no seio da própria origem, tornando-se assim “natural” é, crescentemente, um fenómeno global que não mais respeita as barreiras da compreensão cultural das sociedades que afeta e que, simultaneamente, lhe dá ainda mais força.

Desde os primórdios que o Homem tem vindo a fecundar novos paradigmas que tomam o lugar dos antigos. Mas esses velhos paradigmas, esses conceitos ultrapassados são o vetor crucial para a evolução, são eles que impulsionam o próprio Homem a repensar, reorganizar e reelaborar sistemas criativos que abracem as novas questões que vão surgindo. Assim, é bom que tomemos consciência que embora resilientes e extremamente resistentes à mudança, está na nossa genética criar e romper, elaborar e desconstruir, quebrar e gerar novos arquétipos, a todos os instantes. Aí está assente a evolução humana!

Existem tantas questões que me parecem substanciais!

Qual o valor fundamental dos paradigmas que perpetuamos? Qual a real importância e impacto que têm no Homem e no seu meio?

Como distinguir os arquétipos que devemos perpetuar daqueles que, por ventura, não farão tanto sentido em benefício comum?

Qual o paradoxo destas indagações e o papel que desenpenham nos modelos básicos da sociedade? Qual o poder real deste conceito, a amplitude que sustenta e, sobretudo, a influência que tem em nós?

Se mergulharmos fundo nestas questões, como gostaria que fizessem, facilmente perceberemos que qualquer crença, ideal ou projeção está mais que latente num qualquer paradigma que permitimos que nos influenciasse, por nele nascermos inseridos ou, aí permanecemos, por identificarmos um ínfimo aspeto de nós mesmos. Como seríamos enquanto espécie, se não tivéssemos quebrado alguns dos mais inatos, selvagens, intuitivos e confortáveis paradigmas da nossa história?

É mais que certo que em todo o ser humano está visivelmente patente e, simultaneamente, coexistente um número sem fim de paradigmas que refletem índoles educacional, cultural, social, etc., e que são parte de nós, da nossa história comum. Mas não deveríamos propor-nos um pouco mais a questioná-los um a um, esgravatar e perceber quem realmente somos por baixo de todas as camadas da sociedade que transportamos?

Texto: Maria Martins

Ser um revolucionário na ciência hoje em dia significa flertar com o suicídio profissional. Por mais que a área afirme encorajar a liberdade de experimentação, a estrutura da ciência como um todo, com seu sistema de subvenção altamente competitivo, aliada ao sistema de publicações e de revisão realizada por especialistas da área, chamada de revisão por pares, depende amplamente de que as pessoas se sujeitem à consagrada visão científica do mundo. O sistema tende a encorajar os profissionais a realizarem experiências cujo propósito seja confirmar a visão existente das coisas, ou a desenvolver de maneira mais detalhada a tecnologia para a indústria, em vez de estimular a verdadeira inovação.” — Lynne Mctaggart

O percurso de aprendizagem Introdução à Sustentabilidade Integral (disponível de novo brevemente) ajudar-te-á a perceber as mudanças de paradigma emergentes fazendo uma abordagem das cinco dimensões da sustentabilidade: Educação Holística, Visão do Mundo, Social, Economia e Ecologia.

Paradigmas — Potencial impulsionador
Partilha