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Partilhando o Caminho

Práticas Simples e Inclusivas para Integração da Espiritualidade em Grupos, por Kai Siedenburg

Se tivesse acesso a uma fonte poderosa e universalmente disponível que pudesse tornar o seu grupo ou comunidade mais envolvida, ligada, inspirada e eficaz, não iria querer aproveitá-la? Mas e se também soubesse que muitas pessoas sofreram experiências negativas nas mais variadas formas desta força, que prometeram verdade, paz, ou alegria e no entanto só geraram enorme aborrecimento, repressão, culpa, ou pior?

Este é o complexo e dramático pano de fundo para a introdução de espiritualidade em grupos. E embora possa ser complicado navegar nessas praias, as recompensas dessa viagem, mesmo que a distância seja curta, podem ser grandes.

Este artigo oferece práticas simples, inclusivas e eficazes para integrar a espiritualidade em grupos e comunidades. As práticas destacadas aqui não requerem crença alguma em nada em particular, e são acessíveis a pessoas de uma ampla variedade de tradições espirituais e religiosas, bem como às que não se identificam como espirituais. A maioria pode ser feita em apenas alguns minutos, se necessário, e podem realmente poupar tempo ao grupo, ajudando os participantes a enraizar-se, focar-se e conectar-se.

Espero que este artigo o inspire a usar algumas das seguintes práticas ou a criar as suas, e que também veja darem frutos nos seus grupos e comunidades.

PRÁTICAS

Gratidão

Simples e poderosa, a gratidão é uma das práticas espirituais mais universais. Pode transformar a nossa relação com as nossas próprias experiências, com os outros e com o mundo que nos rodeia. Tal como com todas as práticas, se nos permitirmos estar presentes, interiorizando-a e sentindo-a profundamente, o impacto será maior.

Dar graças antes de uma refeição. Esta é uma das mais comuns tradições interculturais, por uma boa razão. Parando para sentir gratidão por uma refeição ajuda-nos a estar presente para a refeição e fortalece a nossa relação com nós mesmos, uns com os outros e com a nossa comida. Se esta acção de graças incluir reconhecer as pessoas, plantas, animais e elementos que trouxeram o alimento para a nossa mesa, também aprofunda a nossa conexão com estes e com a Terra. Isto pode ser feito em silêncio por uma pessoa, ou por um alguns voluntários ou um grupo maior dizendo uma bênção ou cantando uma música em conjunto. Dando as mãos pode fortalecer-se o sentido de conexão se o grupo estiver confortável com isso.

Expressar gratidão no início ou no fim de um encontro. Ajuda-nos a enraizar e a conectar com os nossos corações, e partilhando-o com os outros ajuda a construir relações. O foco pode estar relacionado com o trabalho do grupo, ou qualquer outra coisa pela qual se sintam gratos. Expressando gratidão pode ser feito por uma pessoa, por algumas pessoas que se sintam inspiradas a partilhar, ou por todos no grupo. Simplesmente convidando os participantes a passarem alguns momentos a perceber pelo que são gratos e a sentir essa gratidão (mesmo que eles não o digam) pode ajudar a iniciar o encontro de uma forma positiva.

Demonstrar apreço uns aos outros. Conhece alguém que não gostasse de ser mais valorizado? Provavelmente não. Expressando apreço para com os outros cria conexão e sentimentos positivos num grupo, e ajuda-nos a perceber o que estamos a realizar juntos. É mais eficaz quando a valorização é sincera, específica, e quando as pessoas sentem que realmente foram vistas e ouvidas. As valorizações podem ser uma parte regular das reuniões de grupos em andamento, e podem ser feitas no início, no fim, ou em qualquer altura – raramente há um mau momento para expressar apreço!

Cultivar gratidão em tempos difíceis. É fácil sentirmo-nos gratos quando as coisas vão bem, mas é sobretudo de valor praticar gratidão quando as coisas são mais difíceis. Um método simples é criar uma lista das coisas pelas quais somos gratos. Isto ajuda-nos a mudar a forma como agarramos uma situação desafiadora, e lança uma luz sobre os recursos internos e externos que podem chegar-nos através dos pontos difíceis. Ao mesmo tempo, é importante dar espaço a que honestamente se reconheça e encaminhe o que é difícil.

Silêncio

O silêncio é um pilar central da maioria das tradições espirituais. Observando o silêncio ajuda a centrarmo-nos e a focarmo-nos, e abre espaço a uma mais profunda sabedoria e orientação para nascer.

Começar ou terminar com silêncio. Alguns minutos de silêncio pode alterar o curso de um encontro levando os participantes para um lugar mais profundo. O silêncio pode ser mais eficaz quando combinado com outras práticas de enraizamento, uma vez que a transição inicial da agitação ao silêncio pode desencadear um alvoroço na inquieta mente. Como é sabido pelos meditadores experientes, a prática de ficar sentado com estes pensamentos e sensações, deixando-os ir e permitindo que surjam momentos de quietude é muito valiosa, mesmo que esses momentos pareçam poucos e distantes entre si.

Convite à reflexão silenciosa. Tirar um tempo para uma reflexão focada e em silêncio sobre um tema, pode ajudar os participantes a acessar a uma maior clareza e sabedoria e criar uma base sólida para uma discussão em grupo. As reflexões podem ser escritas e partilhadas com as outras pessoas no grupo, ou realizada pelos participantes e expressa mais tarde se se sentirem inspirados.

Permitir espaço entre os oradores. Pausas entre os oradores ou os diferentes tópicos ajuda as pessoas a integrar a informação e as experiências de forma mais completa, o que nos permite responder de um lugar mais profundo. Também criam oportunidades para aqueles que precisam de um pouco de mais tempo para formular os seus pensamentos, para participarem mais plenamente. Tenho observado muitas ocasiões em que alguém que se sentou em silêncio durante a maior parte de uma reunião, ofereceu uma contribuição muito valiosa depois de lhes ter sido dado algum espaço ou de terem sido convidados a falar.

Enraizamento (ligação com a Terra)

As práticas de enraizamento permitem-nos conectar com nós mesmos e com os outros, soltar alguma da nossa “bagagem” mental e emocional e tornarmo-nos mais presentes e centrados. São especialmente valiosas quando estamos cansados, tensos, ou dispersos.

Conexão com os nossos corpos. Fazer algumas respirações profundas e libertá-las com um suspiro ou um som ajuda-nos a alcançar os nossos corpos e o momento presente, e fazer isto em uníssono ajuda o grupo a conectar-se. Fazendo alongamentos ou sacudindo os nossos corpos ou sintoninzando diferentes áreas do corpo através de uma observação corporal simples também nos pode ajudar a enraizar. Uma grande variedade de exercícios simples podem ser encontrados em várias tradições de cura.

Conexão com o nosso ambiente. Usando os nossos sentidos para entrar em sintonia com o nosso ambiente físico também nos pode enraizar, especialmente se estivermos num lindo quarto ou num cenário ao ar livre. Este processo pode ser facilmente guiado convidando as pessoas a prestar atenção a coisas como o calor do Sol na face, o som do vento nas árvores, ou nas bonitas flores do espaço de reuniões.

Expressar gratidão ou permitir o silêncio, como descrito acima, também podem ser utilizadas como práticas de ligação à Terra.

Intenções

Definir intenções clarifica o que queremos criar, direcciona os nossos esforços, e atrai orientação e apoio. Proporciona uma direcção e encoraja a avançar.

Clarificar as intenções individuais. A conexão com as nossas intenções ajuda-nos a centrar o nosso papel no grupo. Isto poderia incluir as competências e qualidades com que queremos contribuir, como esperamos ajudar, ou a expectativa do que o grupo pode realizar junto. Essas intenções podem ser guardadas para cada um ou partilhadas com os outros.

Confirmar as intenções do grupo. Retendo as intenções partilhadas com um grupo e reiterando-as ajuda a inspirar e a alinhar os participantes. O grupo pode querer fazer isso regularmente, talvez até em cada reunião. E pode ser feito rapidamente, ou com mais tempo para reter as intenções e imaginá-las a serem realizadas. É importante esclarecer que as intenções são representadas pelo grupo todo, e isso pode necessitar de ser revisto periodicamente.

Conexão com a Terra

Quer reconheçamos ou não, nós, seres humanos somos naturalmente conectados com a Terra e dela recebemos muitos presentes todos os dias. O respeito por esta conexão faz parte da vida diária em muitas culturas tradicionais, mas está ausente em grande parte das culturas modernas. Ainda assim, todos nós temos o poder de nos reconectarmos com a Terra para nos enraizarmos, equilibrarmos e inspirarmo-nos, e alinhar as nossas acções com a imensa inteligência e resiliência do nosso planeta vivo.

Chegar aos nossos sentidos. Os sentidos são uma poderosa porta para a conexão com o nosso ambiente, mas nós estamos muitas vezes demasiado apressados para reparar. Ter tempo para beber da beleza natural que nos rodeia ajuda-nos a desacelerar e a conectarmo-nos com nós mesmos e com a Terra. Também podemos praticar sentindo as nossas raízes energéticas a ir para dentro da Terra, ou a sentir a Terra a segurar-nos e a sustentar-nos.

Expressar gratidão. Reconhecendo os muitos presentes que recebemos da Terra é uma forma simples de honrar a nossa conexão com o nosso planeta incrivelmente abundante. Podemos dar graças pelo ar que respiramos, pelo alimento que comemos, pela água que bebemos ou com que lavamos, por outros recursos que usamos, ou pela chuva, árvores, pássaros, microorganismos … as possibilidades são infinitas!

Honrar os ciclos naturais. As estações, solstícios e equinócios, as fases da lua e outros ciclos naturais têm sido um foco importante das celebrações e cerimónias de há milénios. Formas simples de honrar esses ciclos com um grupo passam por desfrutar de alimentos da época, apreciar um belo pôr do sol, partilhar algo que amamos da corrente estação, ou reflectir sobre o que a lua cheia, o solstício de inverno, ou outros aspectos dos ciclos naturais significam para nós.

Música e Artes

O canto, a dança, a música e as artes visuais são ingredientes essenciais da cultura humana e poderosos veículos de auto-expressão, ensino e inspiração. As artes podem suscitar sentimentos profundos, levantar os nossos espíritos e relembrar-nos quem somos. A partilha de música e arte num grupo pode invocar mais criatividade e sabedoria, e conectar-nos uns com os outros e com algo superior a nós.

Trabalhar com beleza. Apresentar beleza, arte inspiradora ou imagens no espaço de reuniões altera a forma como nos relacionamos com o espaço e com o próximo. Pode incluir a arte criada com a natureza: um ramo de flores, uma cesta de fruta, ou arranjos artísticos de folhas ou pedras. Acender velas também proporciona beleza e ajuda a criar um espaço sagrado e mágico.

Começar com arte ou música. Partilhar uma música, um poema, ou outras palavras inspiradoras durante um encontro ajuda-nos a estar presentes e a abrir os nossos corações, e pode servir de inspiração e alimento ao propósito do grupo. Cantar uma música em conjunto pode ser uma forma de elevação e de união para iniciar ou terminar uma reunião, se o grupo se sentir confortável com isso.

Em geral, é mais seguro e mais fácil para um grupo apreciar a arte ou a música que os outros criaram, ou para voluntários num grupo partilharem as suas próprias criações. Pedindo a todo o grupo para participar fazendo música ou arte pode ser maravilhoso e poderoso, mas infelizmente não é uma prática simples e acessível para alguns. Enquanto que fazer música e arte é tido como um dom natural em muitas culturas, na cultura de consumo moderna é muitas vezes visto como algo que deve ser deixado para os especialistas, e muitas pessoas acreditam que não são boas nessas matérias. Isso não significa que as artes ea música deve ser evitado em grupos, mas sim que é importante para tornar a experiência mais segura e mais acessível possível. Felizmente, fica mais fácil com a prática, muitas vezes muito rapidamente.

Fonte: Publicado na edição de Primavera 2012 da revista Communities – Edição #154 – Fellowship para Intentional Community (FIC) and Communities: A Vida na Cultura Cooperativa

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