/ Sustentabilidade

Simplicidade Voluntária

O nosso ritmo de vida está sempre a acelerar. É preciso trabalhar mais para podermos consumir cada vez mais. Mas há quem esteja cansado do stress diário e da febre consumista e tenha escolhido outro modo de vida. São indivíduos que optaram por fazer uma pausa na corrida louca em que se tinha transformado a sua vida e dispuseram-se a trocar dinheiro por tempo. Falam de liberdade, de redescoberta dos prazeres simples, de bem-estar e de harmonia. Sabem que menos pode ser mais.

Viver melhor com menos. Em 1981, Duane Elgin criou a expressão “simplicidade voluntária” para definir a atitude dos indivíduos que queriam viver melhor com menos, que queriam consumir de forma responsável e que queriam fazer uma avaliação das suas vidas para estabelecer aquilo que era importante e o que não era.

Vida simples ou simplicidade voluntária é um estilo de vida no qual os indivíduos escolhem conscientemente minimizar o consumo. Os seus adeptos escolhem uma vida simples por diferentes razões; espiritualidade, saúde, qualidade de vida, qualidade do tempo passado com a família e amigos, redução do stress, preservação do meio ambiente, justiça social ou anti-consumismo. A vida simples é essencialmente uma escolha e nada tem a ver com "pobreza forçada".

Reproduzimos abaixo uma entrevista com Vicki Robin sobre o fenómeno do consumismo e o seu impacto nas nossas vidas e na vida do planeta. Vicki Robin é uma das fundadoras do movimento da Simplicidade Voluntária.

Por que se consome tanto hoje em dia? Porque a cultura do consumismo vende a vergonha. As pessoas têm vergonha de não ter algo. E correm às compras para cobrir essa vergonha. Desta forma, a nossa cultura vende vergonha e sentimento de inferioridade. E ninguém quer ser inferior aos outros.

Como acontece isso? As publicidades passam a ideia de que é infeliz, gorda e feia. Ao comprar determinado produto, porém, poderá ser feliz, jovem e magra. E com namorado. Subtilmente, dizem que podem melhorar a sua vida. Além disso, a cultura do consumo corta a ligação com a família. Quem tem amigos não consome tanto. Quando se tem família, tudo acontece ao redor dela. Longe de ambos, é preciso pagar por tudo. O consumismo cresce quando estas ligações são rompidas.

No livro O seu Dinheiro ou a sua Vida, ensina a calcular o salário real. Como faz isso? Vamos pensar em alguém que ganha 20 euros por hora. Paga impostos e tem custos de transporte, alimentação e roupas para trabalhar. Na verdade, então, ganha cerca de 10 euros. Além disso, não trabalha apenas as oito horas no escritório. Com o trânsito, numa grande cidade arrisco a dizer que as pessoas devem gastar duas horas por dia para ir e voltar. E outras tantas para se preparar para ir trabalhar. Então, não são mais 10 euros, mas apenas uns 5 euros. Quando se dá conta do tempo que as coisas exigem, vê que uma blusa não custa 75 euros, mas sim 15 horas do seu trabalho. Se pensar assim, comprará menos. A cura para esta loucura do consumismo está na consciência. Não é para deixar de comprar. É deixar de buscar a felicidade nas compras. Não é uma maneira de dizer que o consumo é ruim e que você não deve praticá-lo. A questão é despertar deste pesadelo chamado consumismo. O consumismo enche todas as horas do nosso dia. É a doença do muito. Não temos tempo sequer para pensar no que realmente queremos.

As pessoas são mais felizes quando compram mais? É o que chamamos de curva da felicidade. Quando compra o que é necessário para sobreviver, há muita alegria em relação ao valor gasto. Quando é por conforto, a alegria é menor. Depois de certo ponto, comprar não dá mais felicidade. Tudo será lixo - coisas que compra, mas que não lhe dão nada. Pode ser até mesmo uma casa.

Existe uma receita para viver com simplicidade? É uma vida com intenções, na qual a pessoa pensa nos seus valores e no que é importante. É uma maneira de refletir sobre o que está acontecendo. Quem sonha muito não está refletindo. Se refletimos, podemos nos distanciar dos assuntos e ponderar melhor. Depois, voltamos ao curso normal da vida com mais consciência. Muitas vezes, numa sociedade consumista, as pessoas dão-se conta de que têm muito, consomem muito, fazem tudo muito rápido e não têm horas suficientes para fazer o que realmente querem. É a doença do muito. O consumismo distrai-nos e enche todas as horas do dia. Quando estamos cansados, não temos tempo sequer para pensar no que realmente queremos. Vida simples é viver com o suficiente, o essencial.

É possível levar uma vida simples nas grandes cidades? Sim, na cidade ou no campo. Na cidade estamos mais abertos ao consumismo. No entanto, podemos fazer mais coisas com os amigos, o que no campo é difícil. E também temos a opção de não consumir indo à biblioteca em vez de comprar um livro.

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