/ Visão do Mundo

Sociedade Ecozóica

SABER” “FAZER” ”SER”

“Sociedade Ecozóica” é um conceito de Thomas Berry – consiste na criação de uma nova forma de vida, pautada em valores que restaurem a ligação entre o ser humano e a natureza não apenas pela necessidade física de se combater a degradação ambiental, mas também como uma filosofia que traga novamente essa comunhão com o mundo também à nossa mente e à nossa alma – como os povos da Antiguidade. Este é o artigo base para os grupos de apoio à Sociedade Ecozóica, desenvolvido por Herman Greene com consultoria de Thomas e Jim Berry, Brian Swimme e outros.

Greenman O futuro da comunidade da Terra depende de forma vital da decisão a ser tomada pelos humanos, que se inseriram até mesmo nos códigos genéticos dos processos da Terra. O futuro será decidido pela tensão entre aqueles que se comprometeram com a Era Tecnozóica um futuro com mais e mais exploração do planeta como uma fonte de recursos voltados para o benefício dos seres humanos e os comprometidos com a Era Ecozóica: um novo modelo de relação entre os humanos e a Terra, no qual o bem estar de toda a comunidade da Terra é a preocupação fundamental.

Este é o ponto de partida: o fio da navalha, o grande abismo, o chamado à ação e ao comprometimento. Será que pertencemos à Tecnozóica ou à Ecozóica? Nossa resposta ecoará por todas as épocas futuras.

Ainda assim, vemo-nos numa situação onde aparentemente não há modo eficaz de nos livrarmos da empreitada tecnológica que nos rodeia. Este ensaio foi redigido num computador que tomou forma graças a milhares de processos industriais; ele é alimentado por grandes redes elétricas que correm através de campos e florestas. Quando saímos para o trabalho, unimo-nos a homens e mulheres ao redor do globo na aventura contemporânea chamada “Tecnozóica”. O que podemos fazer, então?

Os Três Pilares

Ainda que existam diversas respostas para essa questão, bem como diversas associações atualmente engajadas na criação da Era Ecozóica, gostaríamos de apresentar os três focos organizacionais que podem lançar luz nas atividades desta área, ao redor dos quais alguns de nós podem até optar por criar novas associações. São essas áreas: a Nova História, o Bioregionalismo e a Espiritualidade Ecológica.

1. A Nova História

A narrativa do desenvolvimento criativo do universo desde seu surgimento primordial até o surgimento da Era Ecozóica é ao mesmo tempo um relato científico e um épico mito de criação. Essa história relata como as coisas surgiram e qual o significado e o papel dos humanos no drama contínuo do cosmos. A natureza dupla da história, sua mescla de ciência e mitologia, é o que a torna uma “Nova História”. Uma fonte primária para conhecer essa história é o livro The Universe Story, de Brian Swimme e Thomas Berry.

A Nova História precisa ser contada de diversas formas. Ela precisa ser ensinada. Precisa ser lida nas histórias infantis e contada ao pé da lareira e ao lado das fogueiras nos acampamentos. Precisa ser cantada, dançada e expressa na liturgia e na arte. Precisa ser batida nos tambores. Peças orquestrais, óperas e oratórios devem ecoá-la em celebração da aventura evolucionária que acontece por todo o universo.

Contudo, podemos perguntar, por mais fascinante que essa Nova História seja, por que ela é tão importante? Por três razões:

  1. a Nova História desperta um sentimento de maravilhamento e mistério na existência e em nossa participação na ordem cosmológica do universo;
  2. a Nova História reconecta o indivíduo (e assim o restaura) àquilo que é primordial na família, tribo, clã ou nação o mundo natural de onde o indivíduo vem e do qual ele faz parte;
  3. a Nova História fornece uma mitologia unificadora para todas as culturas humanas, bem como uma base para a ação comum para a criação da Era Ecozóica.

Se levarmos tudo isso em consideração ao mesmo tempo, podemos dizer que a Nova Histõria é a dimensão do “SABER” da Sociedade Ecozóica.

2. Biorregionalismo

O segundo pilar da Sociedade ecozóica é o Biorregionalismo. Uma “biorregião” é uma divisão geográfica natural da Terra que funciona como uma unidade geo-biológica distinta e relativamente auto-suficiente.

Pensar em termos biorregionais significa perceber os humanos como integralmente relacionados à ordem mundial de suas comunidades locais, e não dominantes sobre elas. O papel dos humanos numa biorregião é apreciar e celebrar a sua diversidade e promover e preservar sua vitalidade.

O biorregionalismo oferece uma nova visão na organização social. Num sentido biorregional, “sociedade” significa toda a comunidade animada e inanimada, toda ela vista como necessária para o funcionamento correto do todo. A ordem social atual, dominada pela ascensão dos estados-nações e das corporações multinacionais, foi conduzida pelo objetivo de dar identidade, liberdade e bem estar econômico aos vários povos da Terra. O nacionalismo, aliado ao progresso, à democracia, aos direitos humanos, à economia de mercado, aos direitos à propriedade privada e aos direitos ilimitados ao ganho material cativaram e orientaram a imaginação humana na era moderna.

Os benefícios desses movimentos, focados na necessidade dos humanos, vem exercendo sobre nós um efeito hipnótico. Só agora começamos a perceber que, quando afastados do contexto de uma visão global da comunidade da Terra, os benefícios oferecidos são frágeis e temporários.

O Bioregionalismo não se opõe à busca por mais bem-estar à comunidade humana. Pelo contrário, ele oferece uma base viável para essa busca, tendo como base a compreensão de que a saúde dos seres vivos em suas muitas formas depende da saúde da Terra. Ao reconhecer que a Terra é uma unidade funcional que o ar, a água, os outros elementos, as múltiplas formas de vida e a energia fluem incessantemente e se interrelacionam por toda a Terra o Biorregionalismo é global em sua orientação. Ao reconhecer que a Terra é uma entidade individual e precisa ser sustentada através da integridade de seus muitos modelos biorregionais, o Biorregionalismo é local em sua orientação.

Intuitivamente, sentimos que a constituição da política biorregional preservaria não somente os direitos dos humanos, mas também os direitos de toda a comunidade geo-biológica. Em termos econômicos, a lei fundamental deve rezar que a economia humana deve ser sustentável e deve preservar o funcionamento da economia da Terra. A riqueza das nações seria aferida pelo esplendor e pela integridade de suas diversas biorregiões vitais e pelas culturas humanas existentes dentro dessas biorregiões.

Motivados pela nova sensibilidade do biorregionalismo, os humanos voltariam a habitar os seus próprios hábitats. Eles voltariam para casa, como se a ela chegassem pela primeira vez. Seus olhos poderiam ver com clareza a grandiosidade e a beleza intricada de suas paisagens naturais, bem como os alarmantes danos causados. Eles passariam a conhecer seus locais tanto pelas ruas, construções e outras características humanas quanto pelas árvores, plantas, animais, rochas e veios d’água. Seus hábitos alimentares e suas vidas observariam a suave ordem dos ciclos sazonais. Eles vivenciariam a comunhão com uma família mais vasta. E também compreenderiam e observariam os princípios básicos da ordem natural – como dependemos uns dos outros, como sustentamos uns aos outros, e como podemos trocar e reciclar as energias e os detritos dos outros.

O biorregionalismo fornece o contexto para um progresso humano verdadeiro, podendo assim ser visto como a dimensão do “FAZER” da Sociedade Ecozóica. O trabalho de apoio à biorregião pode incluir o plantio de hortas comunais na vizinhança; o aprendizado e a divulgação de técnicas de compostagem; o conhecimento das plantas, animais e da geologia locais; a organização de grupos de caminhadas na natureza; o aprendizado e a transmissão de permacultura e conservação ambiental; a mudança dos padrões pessoais e familiares de consumo; o trabalho com empreiteiras, câmaras municipais e sociedades de amigos de bairros no desnevolvimento de comunidades que preservem os hábitats naturais; o aprendizado e divulgação do biorregionalismo e de sua importância para o governo e a economia; e o compartilhar de idéias sobre esforços biorregionais que dão certo.

3. Espiritualidade Ecológica

O terceiro e último pilar de uma Sociedade Ecozóica é a Espiritualidade Ecológica. Em nossa grande maioria, nós perdemos o sentido da espiritualidade da Terra e, assim, perdemos também nossa ligação máxima com seus processos naturais. A visão dominante do senso de realidade e de valor nas civilizações clássicas baseava-se na miséria da condição humana e na natureza transiente e trágica da ordem temporal. Como observado por Swimme e Berry em The Universe History, o mundo dos fenômenos foi visto por essa compreensão como opressivo aos aspectos mais exaltados do ser humano. O mundo espiritual e o mundo natural eram vistos como duas ordens diferentes de existência. A convicção que vê o mundo natural como uma realidade inferior, temporal, afastada da realidade superior, eterna, combinou-se aos benefícios aparentes da tecnologia de nossos tempos e juntas tornaram aceitável a crença de que a exploração dos recursos da Terra sem dar importância aos efeitos sobre o ecossistema é positiva.

A Espiritualidade Ecológica tem por base a consciência de que, desde o início, o universo possui uma dimensão psíquica-espiritual e que essa dimensão se manifesta em todos os elementos do universo e no universo como um todo. Como afirma Thomas Berry em seu artigo “The Spirituality of the Earth,” quando falamos da Espiritualidade da Terra não estamos nos referindo à Terra como possuidora de uma qualidade objetivamente espiritual como quando observamos a beleza da Terra -, mas sim da espiritualidade da Terra como subjetiva a realidade numinosa interior que dá forma à Terra e da qual compartilhamos. A Espiritualidade ecológica pode ser vista como a dimensão do ” SER” da Sociedade Ecozóica.

Em seu sentido mais simples, a prática da espiritualdiade ecológica envolve a reconexão com o mundo natural e sua qualidade numinosa. Isto pode envolver a atenção ao canto das aves, à presença dos ventos e dos mares, e também a absorção de uma noite estrelada ou a proximidade à terra e às sementes.

Para alguns, a espiritualidade ecológica envolve uma dimensão comunal enquanto que, para outros, ela é a prática de uma religião estabelecida. No contexto comunal, a espiritualidade ecológica envolve a renovação das tradições ou o surgimento de novas tradições que despertem nossa sensibilidade ao mundo natural e à contínua criatividade do cosmos. A referência primária dessas espiritualidades ecológicas em suas múltiplas formas não será encontrada nos textos escritos de nenhuma religião, mas sim na compreensão não-verbal primária da revelação do divino na natureza. A espiritualidade ecológica não substituirá os ensinamentos tradicionais da espiritualidade e da ética, mas ampliará o contexto desses ensinamentos e expandirá a consciência do encontro entre humanos e divinos.

Este é o artigo base para os grupos de apoio à Sociedade Ecozóica, desenvolvido por Herman Greene com consultoria de Thomas e Jim Berry, Brian Swimme e outros. Herman Greene é advogado e um ministro Batista vivendo em Chapel Hill, Carolina do Norte.

Claudio Crow Quintino

Sociedade Ecozóica
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